Do alto, eu vejo os dias como seres vivos, com enormes garras tentando alcançar o cume do monte.
No grande esforço da subida os dias vão tomando formas, criando couraças e, algumas vezes cruzam-se facilitando à subida.
Era um, e, no decorrer do tempo tornaram-se centenas que às vezes se separam em grupos comentando sobre o desafio da subida.
Houve momentos de apavorantes quedas que impediram a caminhada desafiante dos dias.
O descanso das noites fortalecia e, a subida continuava em tempo de sol, e às vezes sob trovoadas.
A esperança que está comigo no alto do monte é mais forte do que a matéria que me envolve e, eu vejo à minha frente um grande quadro onde alguém marca os lances da subida.

No fundo do cenário há luz e, cada vez que um dia entra na contagem do tempo é fixado pela luz resplandecente.
Observo também que alguns dias negros e turbulentos são cobertos com sangue carmesim.
E, foram tantos numa espantosa velocidade que eu não consigo registrar a extraordinária corrida do tempo.
Então eu recorri à memória e procurei saber o registro do tempo.
Vi 28.800 dias com expressões suaves refletindo uma luz.
Percebi que ainda faltavam alguns lances da subida, então pedi ao Dono do universo que faça chegar ao topo da montanha, segura nos seus braços.
Olhando para baixo vi que os dias negros servem de sustentáculos, os dias alegres são o sopro da vida.
Não é uma divagação, mas, certamente uma interpretação pessoal com a liberdade da alma que sonha, crê e deseja cada dia conhecer os mistérios da vida.
Olhando para trás consigo ver os rastros desta corrida, rastros que apontam a etapa final.
Surpresa fiquei ao ver na estrada algumas pedras em forma de gotas, que ao reflexo do sol ou da lua se tornaram brilhantes, às vezes pálidas, às vezes coloridas.
Certamente são as lagrimas que foram derramadas em momentos de alegria ou tristeza, não pude definir precisamente, mas, eram muitas.
Vi também algumas construções inacabadas, outras completas rodeadas de jardins.
E os dias subiam aos saltos os degraus do tempo.
Havia muitas vezes, entre eles desentendimento outras vezes interação, mas, todos corriam sem descanso, na disparada da vida.
Comecei a meditar... e, conclui que a melhor forma de percorrer este caminho é esquecer mágoas, perdoar ofensas, jogar as lágrimas na terra seca, olhar na direção da luz divina, comunicar com o próximo que também seguem este caminho, e milagrosamente percebi que aqueles seres vivos, apressados, angustiados começaram a receber sobre a cabeça um brilho prateado.
Para onde correm estes seres?
Pensei....
E, me lembrei que na Palavra de Deus está escrito que os nossos dias são como a sombra; são mais velozes do que a lançadeira do tecelão; um dia faz discurso há outro dia. Um dia nos átrios do Senhor valem mais do que mil em outro lugar. Um dia para o Senhor é como mil anos e mil anos com um dia.
Fiquei perplexa!  28.800 dias que me foram concedidos?
O que são?
O que representa para Deus?
E, eu procurei firmar os pés na rocha, olhar para o sol que despontava no horizonte, levantei as mãos e agradeci a Deus por tudo que vi, recebi, ganhei e uma alegria invadiu meu coração porque na corrida dos dias eu pude ver os filhos dos filhos e, ainda consigo caminhar na direção da cidade da paz onde está assentado o Dono da vida.
Não fiz tudo o que queria nem tampouco o que deveria, mas, conheci o Autor da vida que tem me ensinado a contar os dias de tal maneira que tenho alcançado o prazer de conviver com a Sabedoria.
O que fiz e o que deixei de fazer nestes 28.800 dias está registrado no grande livro da vida e eu tenho o imenso prazer de contar que está matéria simples gerou seis pedras preciosas que continuam gerando brilhantes.
Os meus 80 anos foi o tempo dado por Deus para lançar a preciosas sementes, às vezes chorando, mas, quando voltar para o lar irei com alegria levando comigo os molhos.
Não sinto saudade do que passou apesar de ter vivenciado momentos de imenso prazer, de ter conhecido o amor e ser amada, porque eu sei que a plenitude da graça virá sobre a minha vida e a dos meus descendentes.
Dentro de mim pula um coração que não foi oprimido pelos 80 anos por que nele mora o Dono da vida.

 

 

Esmeralda Campelo
BH 2009

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